sábado, 24 de outubro de 2009

DOS INTERSTÍCIOS DE ME SER EM SILÊNCIO


Não, eu não abandono as palavras.
Elas é que me abandonam. Elas, fugazes e etéreas, é que vão borboleteando para longe de mim no sem fim do silêncio, onde moram, em estado de (...) as palavras que ainda esperam por acontecer.
Sob a forma de som, de letra, de pensamento. As palavras esperam ansiosas pelo dia seu de desabrochar em acontecimento. De romper a fina película que separa o "ainda não" do "já consumado". Serão as palavras ainda mais ansiosas que aqueles que delas se servem para traduzir emoções, pensamentos e sentimentos ou será a angústia ainda a mesma para ambas as partes?
Fico me perguntando quem é que exerce o domínio sobre quem, afinal.
Dizer às vezes é tão tolo. Gratuito.
Escrever é sempre mais arte. No papel (real ou virtual) as palavras parecem ganhar forma mais real, porque podem ser vistas, apreciadas, degustadas e namoradas enquanto COISA, enquanto SIGNO CONCRETO de algo, por vezes, muito maior que elas mesmas, pequeninas.
"... pequenina e feiticeira. Ando no meio das flores procurando quem me queira..." - certamente que a tal borboleta não se importaria de emprestar o versinho a palavra qualquer que dele quisesse se revestir a título de definição.
Palavras esperam que as queiramos para poder, enfim, conhecerem a Luz.
No útero do não-dito descansam todas as palavras-feto esperando o momento certo e o necessário afeto para quebrarem, sutis ou ferozes, a casca do ovocabulário que existe em todos nós.
Exatamente agora, valho-me da metalinguística para voltar o discurso sobre seu próprio percurso e encontrar, quem sabe, abrigo confortável em qualquer lacuna dos interstícios de meu silêncio.
Palavras, quando silenciosas, são muito mais reveladoras: saem de seu reduto só ALMA, sem nenhum CORPO; daí que lhes possamos analisar MELHOR e mais CLARAMENTE o sentido.
Enxergar a alma é enxergar TUDO, certo?
Olho de perto as palavras para que me contem coisa qualquer que ainda não descobri mas pretendo.
Coisa qualquer do mais absoluto essencial que ainda não me foi revelado mas espera. Pacientemente espera por que eu chegue até ele.
Uma vez lá, quem sabe?, eu consiga estabelecer com a realidade em que me circunscrevo, diálogo mais produtivo, edificante, honesto.
É que da maneira como está, me ponho cansado.
Da maneira como acontece, me intimido.
Gosto muito da verdade para me submeter a hipocrisias.
Calo-me, então.
E divido com vocês o abstrato e inexprimível dos interstícios de me ser em (quase) silêncio...

domingo, 18 de outubro de 2009

TUDO QUE TIVER QUE SER...

... SERÁ!

terça-feira, 15 de setembro de 2009

GOTINHAS DE VIDA


Parado na plataforma, esperando o ônibus - que sempre atrasa! - chegar ao terminal para, ao final de mais uma exaustiva jornada de trabalho, poder ser (quase) dignamente restituído ao lar.
E ainda que no quiprocó da capital paulistana, as pessoas, calejadas, entendem que um mínimo de organização é necessário em prol do bem estar coletivo e tentam, mecanicamente, formar uma fila torta e apática para que a entrada no veículo não seja tão atabalhoada.
Eis que, com um pouco mais de atenção e menos egocentrismo, percebo uma garota de uns 15, 16 anos, com Síndrome de Down, chegar sozinha, portando consigo uma mochilinha rosa, um tanto surrada, e trazendo nas mãos uma mexerica já descascada, da qual ela sequencialmente tirava os gomos que levava depressa à boca, oferecendo-os, antes, aos presentes com que se deparava:
_Lalanja, tio. Cê qué?
Ao ouvir a primeira recusa, indiferente, continuou oferecendo aos demais:
_Lalanja, tia. Qué?
Curioso era que ela não mastigava os gomos. Simplesmente os engolia. Um atrás do outro. E fez isso até que todos desaparecessem de suas mãos.
_Cabô lalanja, agola. Cabô. Tio, cabô lalanja. Cabô...
Esboçou uma quase-tristeza pelo término de seu brinquedo-alimento mas, passados alguns intantes, uma camisa do Corínthians de um dos recém-enfileirados lhe chamou a atenção.
Depois foi uma criança de colo, um cachorro de rua e o fiscal do terminal que lhe prenderam o interesse. Natural e espontânea, ela interagia com tudo e com todos. Do seu jeito. Na sua linguagem. Comunicativa e alegre como nenhum dos outros ali presentes parecia capaz de ser naquela hora do dia.
Anormais e antinaturais que somos, não lhe pudemos responder à altura a simplicidade, verdade e beleza do que ali nos regalava.
Então o ônibus chegou e vida virou a página.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

SANTO DE CASA: ISSO DE AMAR

É... Haja amor!
E quando há, tudo fica felizmente.
A despeito dos vícios que o amor gera, todo o mais é terapêutico.
Gotas e mais gotas de uma droga deliciosamente ilícita-explícita, vertiginosa!
Gostosa...
Amar é uma recompensa.
Não importa o que você tenha feito - ou não! - para merecê-la.
E a coisa toda é assim: "Eu amo". Sentença completa.
E, pra mim, como para o Mário, amar é quase intransitivo.
Quem sabe um estado. Um jeito outro - novo! - de inclusive me ver, me sentir e me organizar em relação ao outro.
Desinteressado, preocupado, carinhosamente cuidadoso e "ninho".
Amar é chocar um ovo que nunca sabemos se vai vingar ou não.
Amar, então, é "ninho".
E quem ama é uma galinha zelosa a aquecer um sonho envolvido numa casca.
Dentro do ovo do amor, dormem os sonhos de quem ama.
E quem ama, sonha acordado.
Sonha o tempo inteiro.
Até mesmo quando não é hora de sonhar - é que o amor se rebela contra as leis da física e não conhece distância, tempo, medida... O amor é uma rebeldia que nasce no coração da gente sem nem mesmo precisar de plausível explicação.
Amar é uma forma de se dividir pra se multiplicar.
E eu que não estava acostumado, descobri que amo amar...
E sigo amando, pois. =)

sábado, 27 de junho de 2009

SANTO DE CASA


DESCAMINHOS

Ando pensando em como, sem mais nem menos, alguns caminhos traçados se apagam na areia e cedem lugar para propostas outras, tão inéditas quanto impensadas; tão absurdas quanto tentadoras.
Bobagem pensar que a vida está sob nosso controle.
Bolhas de sabão tem mais verdade e durabilidade que a ilusão de que podemos controlar o nosso destino.
Podemos, contudo, optar por diferentes caminhos.
Podemos, inclusive, voltar atrás dentro de um caminho tido/considerado como o "certo".
É que "certo" e "errado" são conceitos tão fluidos quanto a percepção que os concebe.
Temos o Bem, deparamo-nos com o Mal e, entre um e outro, há de estar, quase sempre, o que chamanos de "Escolha Certa".
Caminhos e descaminhos. Sonhos que ficaram velhos e, por isso, foram deitados fora em algum momento da viagem, sob uma certeira justificativa ou uma frágil desculpa. Importa é que não podemos carregar tanto peso se não quisermos chegar exauridos ao final da jornada.
Sabem de uma coisa? Anos atrás e eu fazia questão de carregar comigo uma série de lembranças e recordações das temporadas passadas de minha vida. Tanto psicológica como fisicamente, as coisas iam se entulhando ao meu redor, remetendo-me, à sua simples contemplação, a épocas e episódios remotos, pessoas e acontecimentos há muito usufruídos, vivenciados... E o fato de guardar recordações eu herdei da minha mãe: perita em arquivar e catalogar coisas. Claro, não passo nem perto da eficiente memória e do amor dela ao PASSADO, mas confesso que me apraz guardar, aqui e ali, algum pequeno registro de ocasiões importantes.
Mas também não sou um 'museu', não! Minha fase passadista, desculpem-me a redundância, ficou no PASSADO, mesmo. Tenho constantemente olhado a vida, nos dias atuais, sob o prisma do FUTURO.
É no dia corrente e nos seguintes que tenho me condicionado a viver intensamente todos os enredos.
Desfaço-me de tudo o que não significa e muito pronto transformo em pó as coisas e pessoas todas que, em minha vida, não deram certo.
Não gosto de acumular máculas nem manchas na minha história pessoal.
Não prestou? Não era aquilo tudo? Não deu certo? ADEUS!
Que deve haver proveito e utilidade pra toda sorte de situação e criatura neste mundão de meu Deus.
Sou grato às pessoas, contudo, pelo tempo de convívio em que a alegria foi verdadeira. Se um ser humano esteve, por temporada, em meu caminho, então, enquanto esteve ali, foi merecedor de minha mais sincera e honesta atenção. Minha preocupação e meu interesse são sempre autênticos. O modo como demonstro carinho e cuidado, idem.
Mas se os descaminhos nos levam a rumos muito diferentes, muito dignamente me despeço e carrego comigo apenas o que de bom se puder extrair daquele específico contato.
Se nem isso for possível, cremo.
Transformo em pó e jogo impiedosamente no mar do esquecimento.
É que é preciso ser prático e duro com os episódios da vida que não nos acrescentaram nada.
Nunca colecionei derrotas. Muito menos sentimentos mentirosos.
Acredito apenas naquilo que o Tempo comprova ser honesto, genuíno, intenso.
As pessoas que nos jogam fora não merecem sequer a nossa lembrança.
Daí que, em minha vida, é como se nunca tivessem existido.
Apago com uma borracha enorme os planos que jamais vão acontecer.
E não lamento nada. Muito pelo contrário.
Na pior das hipóteses, sempre terei a MIM MESMO e isso me basta.
Não é egoísmo, não.
É instinto de preservação.

domingo, 31 de maio de 2009

SANTO DE CASA


DEVANEIOS DE BOA NOITE

Antes de dormir, enquanto tomo meu último copo de leite do dia, gosto estar à varanda da área de serviço e, escorado no parapeito, dar boa noite à vizinhança, ao céu, à Lua...
Deixar-me encantar pelo misterioso céu vermelho, com nuvens esbranquiçadas - às vezes, de poluição, às vezes, de chuva mesmo - e ficar reconhecendo ao redor os sinaizinhos todos de vida que se manifestam nas luzes acesas das outras janelas, através dos vidros, revelando detalhes-relâmpago do curioso universo familiar alheio: a TV ligada, a avó na poltrona, a moça estendendo roupa, o japonês lendo o jornal na sacada, a adolescente sozinha, no quarto, diante da tela luminosa de mais um computador-barquinho a navegar pelos mares da virtualidade...
O vento, então, sopra gelado, contrastando com o quentinho da xícara e pressagiando a madrugada fria, seguida da preguiça maior na hora desengonçada de me levantar.
Uma semana acaba, outra logo se inicia e o girar da ciranda tem de continuar.
Penso logo em todos os queridos aos quais, agora, queria desejar, pessoalmente, boa noite.
As faces risonhas nas quais desejaria, agora, delicadamente pousar meus lábios num beijinho de bons sonhos, durma com Deus...
Coisa, essa, das mais simples e, contudo, impossível diante do longe, da ausência, do intocável.
Sopro um beijo imaginário ao vento e, com o pensamento, multiplico-o em vários, teleguiados, prontos para, por gentil encomenda, sob as coordenadas do coração, atingirem ligeiro os seus destinatários.
Sorrio uma última vez ao cenário urbano e me preparo para, logo mais, sonhar com lindos campos verdinhos, repletos de flores, riachos, recantos, na companhia, claro, do Amor, e de todas as outras prendas a que mais quero bem nesta minha vida.
O céu vermelho, repleto de nuvens brancas, não sei se de chuva, não sei se de tristeza, não sei se de poluição, me dá sua benção e deseja "Bons sonhos, Menino!"
Agradeço, reverente, a delicadeza, e retribuo com o desejo sincero de uma noite tranquila.
O Deus, das alturas, a esta hora, joga um cobertor imenso de amor sobre as criaturas.
Na hora de dormir, nossos anjos da guarda nos esperam a postos para nos contar lindas histórias. Nos pegam pelas mãos e nos conduzem, serenos, a um país onírico, lindo, onde não existem a distância, a ausência nem o medo.
Um país a que todos regressaremos um dia, quando acordarmos do sono da vida.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

...


Hoje não há, em meu mundo, lugar para grandes inspirações nem ideias capazes de comover.
Não há palavras doces, muito menos bonitas, que transformem a descrença e o cinza em algo menos dolorido ou mais mascarado.
O dia, hoje, tem a secura das reticências numa folha em branco.
Quem quiser que o preencha.
Quem quiser que lhe dê - ou empreste, tanto faz! - alguma corzinha que de que não esteja precisando em seu estojo.
Hoje o dia tem sabor de fumaça, cor de desânimo e ares de pedra.
Sem delicadezas.
Agressivamente inesperado como lança traiçoeira, atirada ao calor da raiva alheia e que te atinge em cheio tosco órgão algum que lhe seja vital.
Hoje, vital, mesmo, só a opacidade.
Justo a mim, sempre tão afeito ao brilho.
E aos sorrisos e às aleluias.
Porém, hoje, nada.
Nada, mas a chuva.
A chuva e o frio - que ainda não está tão intenso como gostaria que estivesse.
Estou cansado e com fome.
Só tenho forças pra um banho e pra cama.
O sono venceu.
Talvez Deus me acorde, amanhã, com café na cama e um largo sorriso que ressignifique de pronto o meu absorver a vida.
Não estou triste, contudo.
É que gozo de um amor pleno e, em presença de algo assim, nunca se pode estar triste.
Estou é cinza.
E isso é tudo.
Estou só, também.
Mas há no mundo quem me ame e esteja, neste exato momento, pensando em mim.
Isso é um contentamento, sem dúvida.
Decerto que, amanhã, pensarei nisso e abrirei um sorriso.
Enterrarei a momentânea tristeza como quem enterra um cadáver que já começa a se decompor.
Hoje, no entanto, isso.
Preciso chegar ao fim disso se quiser virar a página sem deixar máculas ou interrogações para amanhã.
Se hoje estou nublado, preciso respeitar esse meu estado de ser.
E chover.
Muito.
Chover tudo o que precisar.
Porque quando as nuvens pesadas se esvaírem, tenho certeza: meu coração se abrirá em sorrisos como o Sol se abre em calor ao raiar de um novo dia.
Insisto no que disse há pouco, se não se lembram: eu AMO.
E quem ama NUNCA perde o rumo.
Quem ama sabe SEMPRE pra ONDE e pra QUEM voltar.
E, por mais que se decepcione com o mundo, sempre haverá aleluiazinha interna a que se voltar num momento único de inspiração divina.
O amor, penso eu, é a face mais bonita do Deus.
Mas o Deus, hoje, se envergonharia de mim e da minha opacidade de criatura despropositada.
Durmo, então, pra não contrariá-lo mais nem me entristecer.
Eu que, apesar dos pesares, juro: não quero ficar triste.
Eu que também não queria falar, mas já me excedo em verbalizações.
Queria ter parado nas reticências mas...
Não adianta! Eu sou ALÉM.
Pronto regresso. Promessa.
No mais, isto:

"Haverá um dia..."

A esperar.